Quinta-feira, 23 de Agosto de 2012

De fa[c]to, conta[c]to leva cê

Fui ontem dar um mergulho à Praia do Salgado – onde na véspera tinham tragicamente morrido afogados avô e neta – e vi lá afixado, na parede do balneário, um cartaz com informações úteis, que dizia em letras garrafais: CONTATOS. Seguia-se uma lista de números telefónicos da polícia, bombeiros, etc.

Ainda não entendi se algumas pessoas são mesmo estúpidas ou se simplesmente gostam de se armar em engraçadas. Na segunda hipótese, parece-me que se deveriam abster de o fazer em documentos pagos com o dinheiro de todos nós.

Se o que está em causa no (des)acordo ortográfico é essencialmente a eliminação de consoantes mudas, qualquer será a parte da palavra MUDAS que essas pessoas ainda não entenderam? Se calhar, há pessoas que não pronunciam o «c» de contactos, mas o (des)acordo não diz que cada qual pode escrever ou não essas consoantes, conforme as pronuncie ou não.

Há algum tempo, participei numa disputa acerca da forma correcta de escrever a palavra «quiser», em que um dizia que se escrevia com «s» e outro que era com «z». Um terceiro pretendeu resolver a contenda, sentenciando que «é como se quis[z]er».

Noutra ocasião, vi escrito «de fato», em fez de «de facto».

Já para não falar na velha história do «cágado» versus «cagado».

O (des)acordo já tem pontos fracos que cheguem, não lhes inventem mais alguns!

Ou inventem, para a gente se rir um bocado...

 

publicado por Mário Pereira às 01:48
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7 comentários:
De Nalini a 23 de Agosto de 2012 às 14:44
Quem não sabe se QUISER é SEMPRE com S, basta saber como é o verbo no INFINITO: não tem nem S nem Z, logo, é com S. FAZER tem Z, logo é FAZ !


De Mário Pereira a 23 de Agosto de 2012 às 21:43
Claro, Nalini, eu também sei que é com S.
Há outra forma, para além da que refere, para saber como se escreve esta e outras palavras: é ler! Ler muito! E, na dúvida, consultar o dicionário. Já os há bons "on-line" (ex. infopedia.pt e priberam.pt).
Relatei este caso, assim como alguns outros, para mostrar como as pessoas, por ignorância ou por paródia, aproveitam a polémica à volta deste acordo ortográfico para lhe imputarem coisas que ele não diz.
Ora, bem basta o que basta!


De Nalini a 25 de Agosto de 2012 às 21:01
Claro que sei que sabe, Mário! É a mnemónica que aconselho a pessoas e sobretudo a alunos.
Tomei a liberdade de publicar o seu texto na m/pagina do Facebook (onde verifico , com dor, que a falta de conhecimento da n/língua impera, quer a nível ortográfico, de sintaxe e até de semântica!)
É também o meu conselho, sobretudo aos jovens: LER LER LER ! De preferência livros "de papel", os clássicos, porque na Internet hoje em dia... Ainda ontem comentava o seu texto com uma amiga. Ambas dissemos a mesma coisa: em caso de dúvida perguntar a quem sabe ou consultar um bom dicionário, mas isso é em CASO DE DÚVIDA! Será que há muita gente com dúvidas? DUVIDO! E o problema começa nos meios de comunicação de massa, sobretudo na TV ! Jornalistas, políticos, publicitários, sei lá! Ortografia, gramática... a ignorância grassa que nem peste!


De Mário Pereira a 26 de Agosto de 2012 às 17:25
Mnemónicas por vezes ajudam, mas no que respeita à nossa Língua, não há nada como (procurar) conhecê-la. E para isso, sem dúvida que ler é a solução. Só que as pessoas, infelizmente, não gostam de ler. Provavelmente porque esse gosto, como por exemplo o de uma boa alimentação, deveria ser incutido desde a infância e não é.
Tive um professor de Português, que dizia, relativamente a erros também muito comuns, como o hífen metido a martelo nalgumas palavras (ex. "Ontem FALAS-TE com ele?"), ou os acentos em palavras que deles não necessitam (ex. RESIDÊNCIAL, PAUL): "Na dúvida, não ponham o hífen nem o acento. Assim, quem vos ler fica na dúvida se não sabem ou se simplesmente se esqueceram de os pôr. Mas se os puserem mal, fica claro que não sabem".
Claro que esta confusão é estranha para quem sabe que os hífenes servem para unir os pronomes pessoais aos verbos, ou que os acentos servem para indicar a sílaba tónica de uma palavra, mas a verdade é que há muito boa gente que os comete. Já para não falar no "FIZESTES" e no "FOSTES".
Perante este triste quadro, mais urgente que este (des)acordo ortográfico seria ensinar Português correcto às crianças, e não aumentar a confusão na cabeça de quem já pouco percebia do assunto.
Quanto à sua página no Facebook, gostaria, se assim o entender, que ma desse a conhecer, uma vez que, apesar de ser um simples leigo na matéria, me interesso bastante por estas questões da nossa pobre Língua, que tão maltratada é. Masoquismo, talvez...
Quanto à dúvida, aí é que bate o ponto. Quem não duvida não quer (e fica sem) saber. Em plena era da comunicação, é triste ver nos media um quase total desprezo pelo Português. Faz ter saudades dos tempos da palmatória...


De NaliniXS a 26 de Agosto de 2012 às 20:22
Obrigada pela resposta. Eu tenho uma pagina NORMAL no FB, onde "solto o verbo" acerca de questões da Língua Portuguesa e dos disparates que se ouvem e se leem, mas estava a pensar em abrir uma especial, intitulada "Português Errante"... porque se ERRA e porque não se sabe para onde vai ou vamos! Nessa página, eu e as pessoas que se sentem "lesadas", poderiam, pelo menos, desabafar, denunciar erros. Servirá? Sei lá! Mas ao menos algo ficará!
"Fostes", "fizestes" dão-me arrepios de morte, sobretudo quando sei que são pessoas licenciadas (?!), mas grave mesmo aconteceu hoje ao ouvir o Sr.Martim Cabral, na SIC, dizer, falando da Síria: "crise humanitária", e outros jornalistas comentando várias tragédia 'humanitárias'. Será que é assim TÃO difícil consultar o CIBERDUVIDAS? "Os mais recentes desenvolvimentos na Líbia trouxeram para a ribalta mediática, mais uma vez, o uso inapropriado, pela generalidade dos jornalistas e dos comentadores portugueses, do adjectivo humanitário. Como aqui já lembrámos tantas vezes – e pelas mais variadas circunstâncias –, desde quando uma tragédia pode ser humanitária? Uma guerra, qualquer guerra, traz tragédia, e desgraça, e sofrimento, e miséria, e crise, e caos, e destruição... humanos. Humanitária («em prol da humanidade») será toda e qualquer iniciativa em sentido contrário. Nas guerras como em qualquer cataclismo, no socorro a populações civis."
E o Prof.Rebelo de Sousa que diz "a séria"? (!!!) EU OUVI, com os ouvidos que a terra irá comer! Tenho ao meu lado um caderninho onde vou tomando nota desses verdadeiros assassinatos!

Votos de uma boa semana, sem "massacres linguísticos" (sonhar não custa... ainda!)



De Mário Pereira a 27 de Agosto de 2012 às 00:39
Pela parte que me toca, tudo o que for feito em benefício da nossa Língua é não só útil como necessário, porque, como dizia o Saramago, "uma língua que não se defende, morre".
À "crise humanitária" já nem ligo, tão comum é desde há uma data de anos. E esse é que é o problema: à força de tanto se dizer e escrever mal certas palavras, parece que a Língua as assimila, passando considerá-las correctas. Já há dicionários com "bué" ou com "alcolémia"... E que dizer do tão comum "há x anos atrás"?
Quanto ao "à séria" do Prof. Marcelo, deve ser para dar um ar de modernice...
Se tem por hábito tomar nota dessas "calinadas", deve ter já muitas páginas preenchidas. Sendo assim, matéria para começar o "Português Errante" não lhe faltará. Força com ele!


De NaliniXS a 26 de Agosto de 2012 às 20:28
À guisa de PS -
O meu cavalo de batalha é exactamente esse: ENSINAR PORTUGUÊS logo no início, em vez de barbaridades acordo-ortográficas, pois é aí - no ensino da língua - que reside o nó do problema!

Lembro-me do meu tempo de menina, na escola: o TPC de Português era copiar "palavras difíceis" encontradas no livro de leitura e procurar os sinónimos.


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