Terça-feira, 4 de Setembro de 2012

Sou a favor das touradas...

… Na mesma medida em que sou a favor do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo ou da adopção de crianças por casais homossexuais: por TOLERÂNCIA!

Para mim, cada um que faça o que quiser, desde que não prejudique os outros.

Assim como os abortos sempre se fizeram, apesar da anterior lei prever a punição das mulheres que os fizessem – os perigos é que eram muito maiores, assim como os negócios… –, também a homossexualidade sempre existiu (talvez apenas mais escondida). Quanto aos direitos das crianças, o que não falta são crianças maltratadas pelos seus próprios progenitores.

Quanto aos defensores dos animais, se quiserem têm muito que fazer. Desde os animais que vivem em jaulas nos zoos, passando pelos que são amestrados, muitas vezes com extrema violência, para as criancinhas (e os adultos) apreciarem as suas habilidades, pelas lojas que vendem animais de estimação para ter em casa, pelos energúmenos que compram um cachorrinho porque lhe acham muita graça, mas que depois, quando ele começa a mijar, a cagar e a destruir tudo o que apanha à frente, o abandonam em qualquer lado, até aos animais que são criados para alimentação humana, em aviários e pecuárias sem um mínimo de espaço, nem condições.

E não me venham com a treta de que precisamos de comer carne ou peixe, porque isso é mentira. Há muita gente que não os come e consegue viver de perfeita saúde. Isso, sim, é um sinal claro da bestialidade humana, criar animais – em espaços ínfimos, quantas vezes com alimentação inadequada e cheios de medicamentos – para nossa alimentação.

Quanto à actividade tauromáquica – e não tauromática, como muitos ignorantes, alguns jornalistas, dizem –, para quem não sabe, é uma actividade que dá emprego a alguns milhares de portugueses, desde os que tratam dos touros e dos cavalos até aos que confeccionam as roupas dos toureiros e cuidam das praças... Movimenta mais de vinte milhões de euros por ano, em Portugal.

Os touros de lide são uma espécie que se extinguirá inevitavelmente no dia em que as touradas acabarem, pois não têm valor comercial. A não ser, claro, que os coloquem nos tais zoos, para deleite das pessoas “civilizadas”.

Os touros (apenas são toureados os machos) são lidados com quatro ou cinco anos e, de facto, passam por uns 10 ou 15 minutos de algum sofrimento, ainda que a sua pele seja bastante grossa (é dela que se fazem os sapatos). Se falo neste pormenor da pele, não é para desvalorizar as farpas que lhes espetam, que também me parecem um tanto ou quanto bárbaras, mas apenas para referir que são absurdas e demagógicas as imagens (montagens) que mostram pessoas aparentemente espetadas e cheias de sangue, para chocar e demonstrar a crueldade daqueles actos. A juntar a esse quarto de hora, há que somar as horas seguintes, até o touro ser morto. Os quatro ou cinco anos que estes animais vivem são gozados em total liberdade, em campos vastos e com alimentação garantida. Em condições, portanto, que a esmagadora maioria dos animais que as pessoas adoram comer nem sonham, se é que tal é possível a animais irracionais…

Os seres humanos são os animais mais cruéis, destrutivos e gananciosos que a Natureza criou. Nenhum outro animal, para além do Homem, passa fome nas condições naturais de vida. A fome é possível, sim, em caso de doença, ferimento grave ou catástrofe natural, mas nunca, como no caso dos humanos, acontece haver alguns (muitos!) a passarem fome e outros a morrerem com excesso de fartura, passe o pleonasmo.

Enquanto os homens matarem outros homens por causa do poder e do dinheiro, enquanto os homens criarem animais em espaços minúsculos para depois os comerem, enquanto os homens exibirem animais em jaulas para seu prazer pessoal, hei-de sempre considerar que a questão das touradas é secundária.

A tauromaquia é uma questão cultural, que obviamente os nórdicos têm mais dificuldade em compreender, porque não têm essa tradição e também porque muitos se consideram superiores a nós, “os do sul”. Com o avanço da civilização humana, mais tarde ou mais cedo acredito que tenderá a acabar.

O que não merece a pena, na minha opinião, é as pessoas porem-se umas contra as outras por causa disto, quando há tanta coisa por fazer no capítulo da dignidade da vida das próprias pessoas.

A começar por esta crise, que foi, como todas as outras, provocada pela cegueira e pela ganância da gente do poder (político e económico-financeiro) e que, como todas as outras, terá que ser a arraia-miúda a pagar.

publicado por Mário Pereira às 19:28
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3 comentários:
De Francisco Ferreira a 30 de Julho de 2014 às 12:13
Concordo inteiramente consigo. Consigo perceber os argumentos contra e a favor das touradas. Acho que inevitavelmente irão acabar porque também não faz sentido uma diversão à volta do touro. Agora também concordo que existem centenas de assuntos mais importantes. E principalmente acho que a maior parte das pessoas que são contra as touradas, o são porque é fácil ser contra as touradas, é simplesmente não aparecer. Agora é difícil ser contra a maneira como é produzida a carne para consumo em massa e é difícil ser contra a maneira como são produzidos muitos produtos que temos, desde a roupa aos telemóveis que tanto gostamos.


De Ana Rita a 9 de Abril de 2015 às 23:21
Eu li este texto e fiquei confusa com apenas uma coisa: como é que uma pessoa que aparentemente é a favor do respeito e dos direitos dos animais desvaloriza totalmente uma prática cruel que , atualmente, em Portugal, causa ferimento ao animal mas que noutros países causa inclusive a morte. E compreendo que hajam problemas maiores mas, por causa de haver problemas maiores não deveremos tratar os menores? Ou seja, há fome em África não podemos comer pois há quem nem tenha comida???? Percebo em parte mas para mim é inaceitável a depreciação completa e pura indeferença por atos tão cruéis


De Mário Pereira a 10 de Abril de 2015 às 22:07
Se leu o texto, percebeu que não gosto das farpas. Penso que poderiam – e deveriam – ser espetadas numa espécie de almofada aplicada no lombo dos touros, de forma a impedir ferimentos, ou talvez fosse possível usar umas ventosas que se prendessem num tecido adequado, como velcro, por exemplo. O espectáculo far-se-ia na mesma, mas sem infligir sofrimento aos animais. Quando escrevi este texto pretendia chamar a atenção para uma campanha muito dramatizada que na altura se fazia em Portugal e que, como se pode constatar hoje, passou. Infelizmente, são assim as coisas. As pessoas interessam-se por determinados assuntos, mas ao fim de algum tempo acabam por se esquecer. Quanto ao sofrimento dos animais, há muito para fazer, se as pessoas realmente o desejarem. Trata-se de um problema que ultrapassa em muito as touradas.


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