Segunda-feira, 12 de Março de 2012

O suposto artigo de Nicolau Santos: "Demita-se, senhor primeiro-ministro!"

Começou recentemente a circular pela net um artigo supostamente escrito por Nicolau Santos com o título acima, entre aspas.
Quando um amigo mo enviou por mail, confesso que achei estranho, por não me parecer linguagem do Nicolau Santos, e pesquisei um bocado, tendo encontrado no Expresso online o artigo que publico abaixo deste, esse sim, escrito pelo conhecido jornalista, não recentemente, com data de Outubro.
Publico aqui os dois e cada um que tire as suas conclusões.
As minhas são simples: os dois artigos têm razão no essencial, porque ambos criticam Passos Coelho por seguir acefalamente o que manda Merkel, aparentemente sem se aperceber que esse caminho está a destruir o País. Criticam também o primeiro-ministro por não estar a fazer o que prometeu na campanha eleitoral, o que, apesar de infelizmente se ter tornado hábito (e depois os políticos lamentam-se de que o povo não lhes reconhece credibilidade...), não deixa de ser uma atitude vergonhosa. Na verdade, isto significa que as campanhas eleitorais, com os respectivos balúrdios pagos pelo erário público, não são necessárias, porque não esclarecem ninguém. O "jogo democrático", já todos sabemos, implica a chamada alternância, ou seja: a cada uma ou duas legislaturas troca-se o PS pelo PSD e vice-versa. Assim sendo, basta que haja as eleições, mesmo (e de preferência) sem campanhas eleitorais, porque há que mudar as moscas, para que a m... possa continuar a ser a mesma.

Aqui vai então o suposto artigo de Nicolau Santos:

"Demita-se, senhor Primeiro-Ministro
Nicolau Santos, na sua habitual coluna do semanário Expresso, desnudava a alma, com estes termos: Sr. primeiro-ministro, depois das medidas que anunciou sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes. Também eu, senhor primeiro-ministro. Só me apetece rugir!...
O que o Senhor fez, foi um Roubo! Um Roubo descarado à classe média, no alto da sua impunidade política! Por isso, um duplo roubo: pelo crime em si e pela indecorosa impunidade de que se revestiu. E, ainda pior: Vossa Excelência matou o País!
Invoca Sua Sumidade, que as medidas são suas, mas o déficite é do Sócrates! Só os tolos caem na esparrela desse argumento. O déficite já vem do tempo de Cavaco Silva, quando, como bom aluno que foi, nos anos 80, a mando dos donos da Europa, decidiu, a troco de 700 milhões de contos anuais, acabar com as Pescas, a Agricultura e a Indústria.
Farisaicamente, Bruxelas pagava então aos pescadores para não pescarem, e aos agricultores para não cultivarem. O resultado foi uma total dependência alimentar, uma decadência industrial e investimentos faraónicos no cimento e no alcatrão. Bens não transacionáveis, que significaram o êxodo rural para o litoral, corrupção larvar e uma classe de novos muitíssimo-ricos. Toda esta tragédia, que mergulhou um País numa espiral deficitária, acabou, fragorosamente, com Sócrates. O deficit é de toda esta gente, que hoje vive gozando as delícias das suas malfeitorias. E você é o herdeiro e o filho dileto de todos estes que você agora, hipocritamente, quer pôr no banco dos réus?
Mas o senhor também é responsável por esta crise. Tem as suas asas crivadas pelo chumbo da sua própria espingarda. Porque deitou abaixo o PEC4, de má memória, dando asas aos abutres financeiros para inflacionarem a dívida para valores insuportáveis e porque invocou como motivo para tal chumbo, o caráter excessivo dessas medidas.
Prometeu, entretanto, não subir os impostos. Depois, já no poder, anunciou como excecional o corte no subsídio de Natal. Agora, isto! Ou seja, de mentira em mentira, até a este colossal embuste, que é o Orçamento Geral do Estado.
Diz Vossa Eminência que não tinha outra saída. Ou seja, todas as soluções passam pelo ataque ao Trabalho e pela defesa do Capital Financeiro. Outro embuste. Já se sabia no que resultaram estas mesmas medidas na Grécia: no desemprego, na recessão e num deficit ainda maior. Pois o senhor, incauto e ignorante, não se importou de importar tão assassina cartilha. Sem Economia, não há Finanças, deveria saber o senhor. Com ainda menos Economia (a recessão atingirá valores perto do 5% em 2012), com muito mais falências e com o desemprego a atingir o colossal valor de 20%, onde vai Vossa Sabedoria buscar receitas para corrigir o deficit? Com a banca descapitalizada (para onde foram os biliões do BPN?), como traçará linhas de crédito para as pequenas e médias empresas, responsáveis por 90% do desemprego?
O Senhor burlou-nos e espoliou-nos. Teve a admirável coragem de sacar aos indefesos dos trabalhadores, com a esfarrapada desculpa de não ter outra hipótese. E há tantas! Dou-lhe um exemplo: o Metro do Porto. Tem um prejuízo de 3.500 milhões de euros, é todo à superfície e tem uma oferta 400 vezes(!!!) superior à procura. Tudo alinhavado à medida de uns tantos autarcas, embandeirados por Valentim Loureiro. Outro exemplo: as parcerias público-privadas, grande sugadouro das finanças públicas. Outro exemplo: Dizem os estudos que, se V. Ex.ª cortasse, na mesma percentagem, os rendimentos das 10 maiores fortunas de Portugal, ficaríamos aliviadinhos de todo, desta canga deficitária. Até porque foram elas, as grandes beneficiárias desta orgia grega que nos tramou.
Estaria horas, a desfiar exemplos e você não gastou um minuto em pensar em deslocar-se a Bruxelas, para dilatar no tempo as gravosas medidas que anunciou para Salvar Portugal!
Diz Boaventura de Sousa Santos que o senhor Primeiro-Ministro é um homem sem experiência, sem ideias e sem substrato académico para tais andanças. Concordo! Como não sabe, pretende ser um bom aluno dos mandantes da Europa, esperando deles compreensão e consideração.
Genuína ingenuidade! Com tudo isto, passou de bom aluno para lacaio da senhora Merkel e do senhor Sarkhozy, quando precisávamos, não de um bom aluno, mas de um Mestre, de um Líder, com uma Ideia e um Projeto para Portugal. O Senhor, ao desistir da Economia, desistiu de Portugal! Foi o coveiro da nossa independência. Hoje é, apenas, o Gauleiter de Berlim.
Demita-se, senhor primeiro-ministro, antes que seja o Povo a demiti-lo.

Tenho em mim todos os sonhos do Mundo.
(Fernando Pessoa)


publicado por Mário Pereira às 12:11
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