Quinta-feira, 15 de Março de 2012

Nos tempos em que os estrangeiros nos invejavam...

Mas Amaro, radiante de se achar ali, numa praça de Lisboa, em conversação íntima com um estadista ilustre, perguntou ainda, pondo nas palavras uma ansiedade de conservador assustado:
— E crê vossa excelência que essas ideias de república, de materialismo, se possam espalhar entre nós?
O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, até quase junto das grades que cercam a estátua de Luís de Camões:
— Não lhes dê isso cuidado, meus senhores, não lhes dê isso cuidado! É possível que haja aí um ou dois esturrados que se queixem, digam tolices sobre a decadência de Portugal, e que estamos num marasmo, e que vamos caindo no embrutecimento, e que isto assim não pode durar dez anos, etc., etc. Baboseiras!...
Tinham-se encostado quase às grades da estátua, e tomando uma atitude de confiança:
— A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos... E o que vou a dizer não é para lisonjear a vossas senhorias: mas enquanto neste país houver sacerdotes respeitáveis como vossas senhorias, Portugal há-de manter com dignidade o seu lugar na Europa! Porque a fé, meus senhores, é a base da ordem!
— Sem dúvida, senhor conde, sem dúvida, disseram com força os dois sacerdotes.
— Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animação, que prosperidade!
E com um grande gesto mostrava-lhes o Largo do Loreto, que àquela hora, num fim de tarde serena, concentrava a vida da cidade. Tipóias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a palidez clorótica duma degeneração de raça; nalguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos de praça gente estirava-se num torpor de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o símbolo de agriculturas atrasadas de séculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguês enfastiado lia nos cartazes o anúncio de operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operários havia como a personificação das indústrias moribundas... E todo este mundo decrépito se movia lentamente, sob um céu lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a lotaria e a batota pública, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das pequenas novidades: e iam, num vagar madraço. Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime.
— Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento... Meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa!
Excerto d'«O Crime do Padre Amaro», 1879, Eça de Queiroz
publicado por Mário Pereira às 23:02
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Quarta-feira, 7 de Março de 2012

A propósito da exportação do pastel de nata e da cavaca...

Através do blogue "Crónicas de um Matemático Exilado no Mundo"

 
(http://exiladonomundo.blogspot.com/2012/02/o-pastel-de-belem-e-cavaca.html)
chegou-me ao conhecimento que a multinacional americana KFC, além das asas de frango fritas, também vende na China (só?) pastéis de nata ou de Belém, como se pode comprovar na foto do mesmo blogue, que reproduzo com a devida vénia.
Como parece que os chineses não são muito dados aos produtos lácteos, nem aos ovos frescos, sugere o autor que para lá comecemos a exportar um doce menos perecível, como a cavaca. Já agora, quando exportarem a cavaca, levem também o... pois. Ninguém o queria, não é? Pois, outra vez.
A triste realidade é esta: se nós, por obra e graça do Espírito Santo, começássemos a exportar os nossos fantásticos doces por esse Mundo, e admitindo que eles tinham sucesso, em pouco tempo apareceriam as grandes cadeias internacionais de distribuição a "apropriar-se" das receitas e a vender esses produtos com muito mais sucesso do que nós próprios. O mesmo se aplica aos nossos enchidos ou queijos, em relação aos quais já o viajado Eça de Queiroz garantia (e com razão, digo eu) que se batiam com os melhores queijos franceses ou suíços. 
Para produzir em larga escala, não temos dimensão. Restar-nos-ia, então, fazer uma boa divulgação destes e de tantos outros produtos de excelência que temos no nosso País e vendê-los como produtos "gourmet", a preços elevados. Esta sim, poderia ser uma boa opção, desde que não houvesse logo uns portugueses (e/ou estrangeiros, nomeadamente chineses, pois claro) a falsificar esses produtos e com isso a desqualificá-los irremediavelmente.
Isto faz-me lembrar uma pequena mercearia que visitei em Paris há mais de vinte anos, propriedade de um emigrante português, que vendia desde o bacalhau ao vinho tinto, passando pelas hortaliças, enchidos e azeite, até alguns doces. Tudo português, fresco e de boa qualidade. Para isso vinha cá ele todas as semanas, às vezes mais que uma vez, abastecer-se. Na altura, o homem tinha sucesso com o seu pequeno negócio, porque a melhor publicidade que existe, que é a "boca-a-boca" (salvo seja), funcionava eficazmente entre a vasta comunidade portuguesa radicada na cidade luz. Mais: os próprios franceses que, por acaso ou através de amigos lusitanos, iam tomando conhecimento da pequena e atravancada loja, também contribuíam significativamente para que o negócio corresse de vento em popa. 
E é assim o negócio, quando tem sucesso: ou continua pequeno, com ênfase na excelência dos produtos, ou se amplia, compensando-se a inevitável perda de qualidade com um substancial aumento da... quantidade. 
Há clientes para tudo. 
Assim houvesse em Portugal gente com capacidade para divulgar os fantásticos produtos que por cá se fazem.
publicado por Mário Pereira às 15:59
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